
Recentemente viajei para o Rio de Janeiro e lá passei poucos e intensos dias e uma coisa muito boa (dentre tantas outras) foi ter visto, logo ao chegar, o muro pintado, o muro de gentileza. Foi inesperado. Íamos conversando coisas dispépticas no caminho ao apto da minha amiga, quando vi o muro e a indaguei:
-É aquele da música da Marisa Monte, não é?
-É. Não falei porque achei que não conheciam- respondeu ela.
Ah, eu poderia esquecer de muitas coisas, menos de uma das minhas músicas favoritas de minha cantora favorita (não canso de dizer).
Bem, mas voltando ao raciocínio, a música "gentileza" , desde então, permeou minha cabeça diariamente e eu resolvi escutá-la novamente e folhear o encarte do CD para ver se sanava minha "pseudo-obssessão", só que desta vez foi diferente porque ao invés de ouvir a música, eu a senti. Eu senti a música como nunca tinha acontecido antes, embora eu já a tivesse escutado inúmeras vezes e fiquei emocionalmente entorpecida com tal canção. Foi um acontecimento sinestésico, um mister de sensações prazerosas que eu só sinto com "outras coisas" que considero igualmente prazerosas. Não foi a primeira vez que uma música me causou esta impressão, entretanto foi a primeira com a dita melodia.
Aí eu me danei a pesar na vida e por que não começar pelo título da canção: gentileza.
O que vem a ser a gentileza? Somos gentis com os outros? Os outros são gentis com a gente? Somos gentis com os outros para que os outros sejam gentis com a gente ou esperamos que os outros sejam gentis com a gente, embora não sejamos gentis com ninguém?
Filosofia à parte, a gentileza é o protótipo da educação+amabilidade+delicadeza+elegância. Para ser mais eloqüente, ser gentil é tratar os outros bem, com respeito e atenção. É até um tanto utópico falar desses conceitos nos dias de hoje, em que chegamos a nos assustar quando alguém nos trata bem! O que deveria ser de praxe (a gentileza), acaba sendo um evento isolado e inesperado.
Isso me recorda uma situação vivenciada a poucos dias junto a uma amiga. Nós estávamos indo a uma unidade administrativa da Universidade (FADESP) para receber a resposta de um processo que tínhamos dado entrada. Logo na chegada, a secretária nos recebeu tão educadamente e sorridente que pensei ter cometido uma gafe! Ela nos guiou até o setor responsável, muito solicitamente. Chegando lá, mais gentileza. O chefe veio falar conosco simpaticamente, procurou nosso processo minuciosamente e nos dando atenção ao mesmo tempo, ofereceu-nos café e explicou detalhadamente tudo o que queríamos saber. Saímos de lá maravilhadas e, paradoxalmente, bestificadas. Em quase cinco anos de universidade nunca tínhamos sido tão bem recepcionadas quanto lá fomos (ainda mais por se tratar de órgão público federal!!).
Intrigante termos sentido aquilo, quando o certo seria que fosse sempre assim. As pessoas que trabalham nesses órgãos e ocupam cargos públicos, sobretudo, agem como se estivessem fazendo favor pra gente. Quando na verdade somos nós quem pagamos seus salários. E para piorar ainda mais, isso não se restringe ao setor público, ocorre também no privado. Isso me recorda outra história (de tão banal que se tornou!).
Um dia desses estava tomando sorvete com uma amiga e um casal, pais de um amigo meu. Tomamos o sorvete, conversamos, tomamos mais sorvete e conversamos mais até que resolvemos pagar a conta e ir embora. Antes de deixarmos o local, fomos lavar as mãos, como de costume e entramos no carro. O pai do meu amigo estava indignado, revoltado com o que acabara de ler. Ao lado da pia tinha a seguinte recomendação: "Use apenas duas folhas para secar as mãos". E após trocarmos idéias e opiniões, me impressionei por não ter me revoltado de início também, uma vez que tinha lido a mesma coisa e tinha concordado plenamente com os motivos dele. Ele dizia: "É inadmissível um estabelecimento ter esse tipo de atitude mesquinha". E ele estava coberto de razão.
Um lugar que depende unicamente dos outros para prosperar deveria, no mínimo, oferecer o melhor sabonete e as melhores e infinitas toalhas para enxugarmos as mãos! Por que admitimos esses absurdos? Por que não questionamos? Por que não boicotamos lugares assim? Porque estamos acostumados a ser tratados com desrespeito. As pessoas, os estabelecimentos, os órgãos públicos e privados nos molestam o tempo todo e não fazemos NADA (dependendo do que for eu até faço!). E isso tudo só nos desponta uma realidade desprovida de qualquer tipo de gentileza, daí o porquê de nos sentirmos tão bem quando alguém nos é gentil.
Acredito na gentileza intrínseca, não na gentileza oriunda do marketing (essa gentileza é um pouco forjada, mas menos pior), não na gentileza tão praticada na "política pessoal" (essa soa como falsidade!). Acredito sim, na gentileza resultante da personalidade e, sobretudo, naquela advinda de uma boa criação.
-É aquele da música da Marisa Monte, não é?
-É. Não falei porque achei que não conheciam- respondeu ela.
Ah, eu poderia esquecer de muitas coisas, menos de uma das minhas músicas favoritas de minha cantora favorita (não canso de dizer).
Bem, mas voltando ao raciocínio, a música "gentileza" , desde então, permeou minha cabeça diariamente e eu resolvi escutá-la novamente e folhear o encarte do CD para ver se sanava minha "pseudo-obssessão", só que desta vez foi diferente porque ao invés de ouvir a música, eu a senti. Eu senti a música como nunca tinha acontecido antes, embora eu já a tivesse escutado inúmeras vezes e fiquei emocionalmente entorpecida com tal canção. Foi um acontecimento sinestésico, um mister de sensações prazerosas que eu só sinto com "outras coisas" que considero igualmente prazerosas. Não foi a primeira vez que uma música me causou esta impressão, entretanto foi a primeira com a dita melodia.
Aí eu me danei a pesar na vida e por que não começar pelo título da canção: gentileza.
O que vem a ser a gentileza? Somos gentis com os outros? Os outros são gentis com a gente? Somos gentis com os outros para que os outros sejam gentis com a gente ou esperamos que os outros sejam gentis com a gente, embora não sejamos gentis com ninguém?
Filosofia à parte, a gentileza é o protótipo da educação+amabilidade+delicadeza+elegância. Para ser mais eloqüente, ser gentil é tratar os outros bem, com respeito e atenção. É até um tanto utópico falar desses conceitos nos dias de hoje, em que chegamos a nos assustar quando alguém nos trata bem! O que deveria ser de praxe (a gentileza), acaba sendo um evento isolado e inesperado.
Isso me recorda uma situação vivenciada a poucos dias junto a uma amiga. Nós estávamos indo a uma unidade administrativa da Universidade (FADESP) para receber a resposta de um processo que tínhamos dado entrada. Logo na chegada, a secretária nos recebeu tão educadamente e sorridente que pensei ter cometido uma gafe! Ela nos guiou até o setor responsável, muito solicitamente. Chegando lá, mais gentileza. O chefe veio falar conosco simpaticamente, procurou nosso processo minuciosamente e nos dando atenção ao mesmo tempo, ofereceu-nos café e explicou detalhadamente tudo o que queríamos saber. Saímos de lá maravilhadas e, paradoxalmente, bestificadas. Em quase cinco anos de universidade nunca tínhamos sido tão bem recepcionadas quanto lá fomos (ainda mais por se tratar de órgão público federal!!).
Intrigante termos sentido aquilo, quando o certo seria que fosse sempre assim. As pessoas que trabalham nesses órgãos e ocupam cargos públicos, sobretudo, agem como se estivessem fazendo favor pra gente. Quando na verdade somos nós quem pagamos seus salários. E para piorar ainda mais, isso não se restringe ao setor público, ocorre também no privado. Isso me recorda outra história (de tão banal que se tornou!).
Um dia desses estava tomando sorvete com uma amiga e um casal, pais de um amigo meu. Tomamos o sorvete, conversamos, tomamos mais sorvete e conversamos mais até que resolvemos pagar a conta e ir embora. Antes de deixarmos o local, fomos lavar as mãos, como de costume e entramos no carro. O pai do meu amigo estava indignado, revoltado com o que acabara de ler. Ao lado da pia tinha a seguinte recomendação: "Use apenas duas folhas para secar as mãos". E após trocarmos idéias e opiniões, me impressionei por não ter me revoltado de início também, uma vez que tinha lido a mesma coisa e tinha concordado plenamente com os motivos dele. Ele dizia: "É inadmissível um estabelecimento ter esse tipo de atitude mesquinha". E ele estava coberto de razão.
Um lugar que depende unicamente dos outros para prosperar deveria, no mínimo, oferecer o melhor sabonete e as melhores e infinitas toalhas para enxugarmos as mãos! Por que admitimos esses absurdos? Por que não questionamos? Por que não boicotamos lugares assim? Porque estamos acostumados a ser tratados com desrespeito. As pessoas, os estabelecimentos, os órgãos públicos e privados nos molestam o tempo todo e não fazemos NADA (dependendo do que for eu até faço!). E isso tudo só nos desponta uma realidade desprovida de qualquer tipo de gentileza, daí o porquê de nos sentirmos tão bem quando alguém nos é gentil.
Acredito na gentileza intrínseca, não na gentileza oriunda do marketing (essa gentileza é um pouco forjada, mas menos pior), não na gentileza tão praticada na "política pessoal" (essa soa como falsidade!). Acredito sim, na gentileza resultante da personalidade e, sobretudo, naquela advinda de uma boa criação.
A quem interessar: História do profeta Gentileza (que inspirou a música da Marisa Monte).
José Datrino, chamado Profeta Gentileza, tornou-se conhecido a partir de 1980 por fazer inscrições peculiares sob um viaduto no RJ, onde andava com uma túnica branca e longa barba. Após um grande incêndio num circo de Niterói, o que foi considerado uma das maiores tragédias circenses do mundo, José acordou alegando ter ouvido "vozes astrais", segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. O Profeta plantou um jardim e uma horta no lugar do circo e fez de lá sua morada por 4 anos. Lá, José Datrino incutiu nas pessoas o real sentido das palavras Agradecido e Gentileza. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Daquele dia em diante, passou a se chamar "José Agradecido", ou simplesmente “Profeta Gentileza”.
O profeta Gentileza começou a sua jornada como personagem andarilho. A partir de 1970 percorreu toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: - "Sou maluco para te amar e louco para te salvar".
A partir de 1980, escolheu 56 pilastras do Viaduto do Caju, no Rio de Janeiro, numa extensão de aproximadamente 1,5km. Ele encheu as pilastras com inscrições em verde-amarelo propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização.
Citação: “Gentileza gera gentileza”
E para não perder o costume, a música.
Gentileza - Marisa Monte
Apagaram tudo
pintaram tudo de cinza
a palavra no muro ficou coberta de tinta
apagaram tudo
pintaram tudo de cinza
só ficou no muro tristeza e tinta fresca
nós que passamos apressados
pelas ruas da cidade
merecemos ler as letras e as palavras de gentileza
por isso eu pergunto a você no mundo
se é mais inteligente o livro ou a sabedoria
o mundo é uma escola
a vida é um circo
amor palavra que liberta
já dizia o profeta
apagaram tudo
pintaram tudo de cinza
só ficou no muro tristeza e tinta fresca
Acho que filosofarei menos da próxima...
Simone de Sá


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