
E já que eu citei tanto no texto anterior, resolvi escrever um texto à parte para falar apenas sobre ele, o grande projeto.
Ele teve início há exatamente seis anos, reitero.
No ano de 2001, quando ia prestar vestibular pela primeira vez eu passei por um conflito e tanto, a escolha de minha profissão. Tá certo que eu já havia cogitado algumas possibilidades, mas tudo bem remoto. Quando eu estava no ensino fundamental, a única coisa mais próxima de profissão que eu pensava era ser bailarina. No ensino médio, já tive uma quedinha por direito, porque eu gostava de história e de discutir e eu achava que isso tinha tudo a ver com direito (e não deixa de ter...hehehe). Só que na realidade, nada disso tinha solidez, amadurecimento, pois só tive que lidar seriamente com isso, pela primeira vez, no colegial.
Foi o ano inteiro na indecisão, os testes vocacionais apontavam para profissões de humanas, mas eu não me imaginava dando aula e nem fazendo direito mais. Eu até pensei em jornalismo (por gostar de escrever), mas não tinha na federal do Amapá. Eu não sabia o curso, mas a faculdade sim, ou melhor, a universidade. Eu queria estudar na universidade federal, qualquer que fosse, mas federal. Achava divino estudar numa universidade federal e como eu gosto de desafios, já sabia o que me aguardava.
Acabou que eu prestei vestibular e fui aprovada nas profissões erradas, o que eu mais temia. Mas foi esclarecedor. A partir do que eu não queria, eu descobri o que eu queria. E eu queria estudar medicina.
Sabe aquele velho e corriqueiro adágio de que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”? Era exatamente o que minha mãe falava quando eu dizia que iria trancar o curso de enfermagem para tentar o vestibular para medicina. E por mais teimosa que fosse, eu tinha um certo receio. Mas receios não seriam pários para me intimidar. E eu sabia que ia ser pedreira desde o início e então o grande projeto ganhou asas.
Uma das melhores sensações da minha vida, meu orgulho inflado, minha conquista aflorada, meu reconhecimento transbordando, minha primeira grande vitória. Foi isso tudo que representou pra mim a minha aprovação no vestibular. Ninguém tem noção de como eu me senti com aquela conquista! Do que aquilo significou pra mim. Era como se eu tivesse assistindo um clipe de todo o sacrifício que passei tendo um final esplêndido! É uma sensação excitante até de lembrar. E eu adoro lembrar. Foi aí que meu grande projeto começou a virar realidade.
E foi tomando corpo com o tempo. Os primeiros anos do curso talvez sejam os mais difíceis, acredito. A gente acaba fantasiando muito a medicina e o primeiro contato é impactante, sobretudo porque fazemos tudo no básico, menos medicina. A gente decora nomes, decora reações químicas quilométricas, decora código de ética, decora estatística, decora insetos e etc, etc. Isso desestimula muito a cabecinha utópica de quem entra na universidade querendo salvar o mundo!
Os anos consecutivos são controversos. Passamos a ir para os hospitais, a atender pacientes, a receitar os remédios e examinar e tudo o mais. Maravilha. Era o que mais queríamos. Em compensação, nos deparamos com professores de caráter duvidoso, gente de má vontade, o sucateamento do sistema de saúde público e a calamidade que a população vivencia para ter assistência gratuita. Diria que é triste. Quem sabe muitos teriam desistido se tivessem visto tudo isso antes de se interessarem pela medicina.
Sem contar o “voto de castidade” que fazemos, porque fazemos um voto inconsciente quando entramos nessa vida. Que não seja entendido o sentido literal de “voto de castidade”, mas o sentido de que muitas coisas deverão ser abdicadas na vida pessoal em função da profissão, uma delas, noites tranqüilas de sono.
E não bastasse os problemas do SUS, ainda tem os problemas de ordem pessoal e, nesse quesito, a minha turma é campeã. No início tudo eram flores, mas com os anos as máscaras foram caindo e muitas decepções se seguindo. Falsas amizades, inveja, competição, gente mesquinha, tudo isso encontramos no caminho e com essas coisas é meio complicado lidar. Porém, atrás da tempestade sempre vem a bonança, não é? E mais do que amigos, encontrei irmãos no meio dessa selva, irmãos dos quais tenho orgulho de tê-los por perto. Incríveis e incansáveis demonstrações de amizade sempre permeando e reforçando a importância deles.
Passado o básico e o profissional e, assim, longos 4 anos de dedicação integral (incluindo noites e fins de semanas!), esta por vir agora os últimos 2 anos, o internato. Agora eu não tenho suporte pra dissertar, mas sei que a coisa pega. É o momento em que devemos por em prática tudo o que aprendemos em 4 anos. E esse é o problema. A insegurança de não ter aprendido o suficiente, o receio de errar, de não ter preenchido a deficiência do ensino, tudo isso pesa nesse momento. E a busca de alternativas é uma coisa inevitável nessa fase (medcurso). Eu fico pensando se nesses 2 anos as coisas serão diferentes e tenho esperança que realmente sejam, pois afinal de contas, é meu grande projeto em jogo!
E eu estou cheia de expectativas para o internato, estou aflita para que comece logo e que esse aprendizado seja válido pra vida toda. Quero muito poder atender bem meus pacientes, poder ajudar realmente quem precisa de apoio, poder usar do meu conhecimento para promover o bem. Se eu conseguir fazer isso nesses dois últimos anos e me formar com esse propósito realizado, terei certeza que o meu projeto terá valido muito a pena e terei confiança para colocar outros ainda maiores em prática.
Eu espero daqui a exatos 2 anos, ocasião da minha formatura, poder reescrever esse texto e incluir nele tudo de bom que eu tenha vivido na minha vida profissional nesse período e o quanto me ajudou a ser uma boa médica e talvez até mesmo uma pessoa melhor.
Simone de Sá


Primeiramente parabens pelo texto, ele realmente demonstra muito de sua personalidade.
ResponderExcluirSua vitoria eh decorrente de seu mérito, seu esforço, dedicação...
Sei q será meio piegas dizer isso, mas tenho certeza que vc esta no caminho certo, que seras uma excelente medica, que ainda vais pegar teu aviao particular para ir me consultar (de graça espero :P).
Enfim gordinha apesar de estarmos um pouco distantes, saiba q eu estou sempre de longe, numa janelinha, admirando seus atos e torcendo pela sua vitoria...
So lamento vc nao ter decidido fazer uma facul de Direito, o Brasil perdeu a chance de ter uma notavel jurista.
Parabens
Beijos do gordo