sábado, 3 de outubro de 2009

Para meu amigo-irmão Manuel Caitano



Uma amizade pode ter várias feições. Uma amizade pode ser apenas um refúgio esporádico; uma amizade pode ser uma parceria pra diversão; pode ser uma palavra de consolo e estímulo; pode ser uma companhia passageira, entre tantas outras facetas. Dessas amizades todos temos aos quilos e gostamos de tê-las aos montes, sabe por quê? Porque essas amizades geralmente são rasas, cor-de-rosa e beiram a perfeição, porém, se um dia tiver que passar por uma prova de fogo, não vingam.


Mas e um amigo? O que vem a ser um amigo? Um amigo é muito mais do que uma amizade! Quem tem um amigo, tem um irmão. E quem é o irmão? Irmão é aquele “cara” para quem não hesitamos falar o que pensamos, seja isso bom ou ruim; é por quem torcemos exaltados diante do menor motivo que seja; é com quem brigamos ao invés de dizermos o quanto amamos; é quem odiamos na hora da discussão e que horas depois estamos dando risadas; é com quem disputamos as coisas mais banais do mundo, mas pra quem desejamos as maiores conquistas ... isso é ser irmão e, mais ainda, é ser amigo, com a vantagem de eu poder ter escolhido, ou melhor, ter sido premiada por encontrá-los.

E se nossa amizade um dia foi algo inicialmente descompromissado e sem idéia da proporcionalidade, hoje eu tenho um amigo, um irmão e uma família querida de brinde! E fazer um balanço dos momentos que já vivemos me dá uma sensação terrível de saudade e ao mesmo tempo uma sensação de que o futuro não menos feliz será.

Baby, nem mesmo as piores discussões e atritos fizeram com que algo mudasse, pelo contrário, só reafirmou o quanto te adoro e o quanto quero tê-lo para sempre ao meu lado. Pra mim você é isso: é o estímulo vivaz que me faz acreditar e tirar forças de onde nem mesmo sei que tenho; é minha certeza de companheirismo; é o sermão que preciso ouvir certas horas; é a idéia sem noção que eu preciso criticar; é a pra quem eu preciso ensinar a gostar das minhas músicas e convencê-lo de que elas são as melhores; é pra quem eu não tenho horário pra bater o maior papo e achar ótimo; é quem eu preciso criticar o estilo e o corpo sobrepesado (mentira!), é com quem eu preciso almoçar final de semana junto com a família; é pra quem eu preciso dar minha opinião sobre seus planos; é em quem eu preciso me inspirar pra estudar; é em quem acredito muito, quem defendo sempre e pra quem desejo tudo de melhor todos os segundos/minutos/horas dos 365 dias do ano! Enfim, isso é que você, meu amigo, representa pra mim!Isso é o nosso trio, nossa irmandade, nossa seita, que amo mais a cada dia! Feliz aniversário, meu irmãozinho!

"E o que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia"
 
Simone de Sá

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Minha mensagem de Formatura

" Hoje caminho para a concretização de um grande projeto, edificado à custa de suor, obstinação e devoção. Deparei-me com vários leões, e com eles me digladiei; assimilei meus erros e joguei com a audácia; sofri com a saudade; cresci com as inevitáveis e evitáveis pedras e chorei com veemência os contentamentos e desventuras. Ainda que considerasse a vivaz e intrínseca “teimosia”, confesso: não teria conseguido sem vocês e, tudo o que fiz, foi por vocês e pra vocês, meus infalíveis pais e irmãos!"

sábado, 9 de maio de 2009

Eu quero mais é curtir a vida!!!

Bom, depois de praticamente um ano e meio sem uma postagem sequer, eis que a vontade de compartilhar minhas idéias no Blog se manifestou como uma febre de 40º! E eu, adestradamente, só estou obedecendo meus instintos e tomando meu antídoto aqui, ao escrever.

É engraçado quando posto e faço uma ronda por todos os textos que já publiquei aqui e percebo como certos momentos da vida me ispiraram e como fui influenciada por tais fases, isso fica muito notório até na maneira com a qual escrevi! Provavelmente daqui a um tempo eu vou dizer a mesma coisa sobre esse texto! E mais ainda, que essas fases passadas, realmente ficaram no pretérito mais-que-perfeito!

Hoje, outro momento vivo, talvez não melhor do que os outros, porém, apenas correspondente a um período de mudanças muito intensas na minha vida, principalmente, pela minha formatura.

Fico extremamente receosa quando o assunto é mudança. Mudança pode configurar vários aspectos, desde uma mudança no cabelo com um corte diferente (que já é algo impactante..hehe), até uma mudança de cidade, de meio social, de hábitos ou mesmo de vida. Mas, Raul (1978) apud Simone (2009), eu ainda prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter a velha e imbecil opinião repessada pelos outros sobre a vida e o mundo!

Talvez eu esteja vivenciando a "crise do último ano", como intitulou o Dárcio, grande amigo meu.
A verdade é que levo a vida muito a sério e procuro viver intensamente todas as etapas dela. Sei que é feita de etapas e que cada uma deve ser vivida no seu momento, pois se a gente pular, corre o risco de lá na frente querermos voltar, aí complica o ciclo todo!

Posso classificar minha vida em etapas: 1) "Reconhecimento de área" - do meu nascimento até por volta dos 10 anos, quando eu era 100% criança. 2) "Descobrimento de mim" - a personalidade foi se delineando, minhas preferências ganhando corpo, despreocupações com futuro, primeiros sentimentos aflorando-se e por aí vai. 3) "Independência" - primeiras decisões sérias, aprendendo com os erros, caminhando com as próprias pernas, escolhendo meu caminho e pensando no futuro.

Diria que "O amadurecimento", etapa 4, está nas vanguardas já. E são essas transições que me deixam confusa, sinestésica, preocupada; ora nostálgica e melancólica pelo que vai ficando pra traz, sabendo que não mais voltará e ora maníaca no sentido de descobrir coisas novas, de viver na incerteza incitante do futuro.

Entrada a fase nova, meu ânimos se aquietarão, sim. E é isso que me consola.

Como costumo dizer, eu gosto de curtir cada fase, me atolar nelas, e sair com a sensação do "dever cumprido", de que "eu fiz tudo que tinha que fazer", exatamente pra não morrer de remorso depois.

Então eu vivo, vivo agora, com toda minha ira, com toda minha garra, minha energia, minha "mania" e não vou podar nada por receio do futuro! Agora é agora! Depois é depois! Eu quero mais é curtir a vida, sem perder de vista o horizonte que fica perto e a paisagem que se distancia, quando olhar p/ traz!

Simone de Sa

sábado, 5 de janeiro de 2008

A menina que roubava livros


Um livro, acima de tudo, doce. Por mais contraditório que pareça (a tirar pelo título), é um livro doce.

Para começar, quem narra a história é nada menos que a Morte. É, a morte conta sua trajetória execrável e, ao mesmo tempo, taciturna, na qual descobre uma garotinha alemã, que em pleno auge da 2º guerra mundial, encontra na leitura e nas palavras o melhor refúgio para a pobreza, devastação oriunda da guerra e, principalmente, para aliviar as seqüelas dos acontecimentos traumatizantes de sua vida. O livro aborda as implicações políticas da guerra, a perseguição aos judeus (sobretudo quando na casa da menina um judeu será escondido no porão), os “dogmas” nazistas e o culto à Hitler.

O mais legal no livro, entretanto, é que ele é envolvente, ele nos leva para dentro da história e nos faz imaginar os mínimos detalhes do que é descrito. Ele não perde a doçura mesmo falando de guerra! Faz-nos sentir como a menina, a sensação prazerosa que a mesma sente cada vez que rouba um livro, os anseios, os pesadelos, as angústias vividas a cada lembrança da mãe e do irmão; faz com que sintamos a humilhação, a fome, os maus tratos que os judeus recebiam e, ao mesmo tempo, faz com que sintamos o orgulho ariano daqueles que idolatravam obcecadamente a suástica.

Muito interessante, também, é o fato de a menina conseguir manter os bons sentimentos e uma certa felicidade, apesar de toda miséria, do irmão morto na estação de trem que perturbava-lhe o sono religiosamente toda noite, a mãe biológica tê-la abandonado, entre outras coisas a que fora submetida desde muito cedo.

E é exatamente no enterro do irmão, ainda criança, que ela descobre sua maior e mais prazerosa válvula de escape, roubar livros, ela rouba “o manual do coveiro”, ainda no cemitério. Depois se sucedem roubos “consentidos” da biblioteca do prefeito da cidadezinha onde morava na Alemanha com sua família adotiva. Muito embora a mulher do prefeito tenha-os oferecido e a garotinha tenha recusado, ela preferiria obtê-los de maneiras escusas, roubando-os; e a mulher do prefeito, sabia.

Adiante, trava-se entre a menina e a mulher supracitada uma espécie de laço de amizade, cumplicidade, talvez. E ao mesmo tempo em que faz bem à menina (furto), faz bem à primeira dama (satisfazer alguém em tempos tão sombrios).

E é esta mulher que salvará a vida dela tempo depois. No momento em que os Aliados viram o jogo na Guerra e a Alemanha começa a perder, a menina vai ser salva (a única salva da sua rua) por estar no porão de sua casa. Por estar escrevendo no porão. Escrevendo em seu diário. Seu diário presenteado. Presenteado pela primeira dama. E foi esse diário que a livrou da morte durante o bombardeio (a menina foge o livro todo da morte). A menina, mais uma vez, ludibria a morte e sobrevive ao bombardeio. O bombardeio que levou seu amado pai, sua mãe, seu melhor amigo Rudy e sua vizinha austera, para a qual lera tantas vezes os produtos dos seus furtos, em troca de um cafezinho ou de um simples “obrigada”.

As palavras lhe eram aliadas, salvaram sua vida e ela as amava por isso. As odiava, porém, quando lembrava que as mesmas palavras (as de Hitler, claro) levaram os que mais amava.
Seu diário fica em posse da Morte. A menina, sobrevivente, vai morar com o prefeito e sua mulher (onde tantas vezes foi entregar roupa lavada e passada por sua mãe e, claro, de onde roubou muitos livros). Reencontra, anos depois, o judeu de quem se tornou muito amiga (de quem ganhou um livro escrito manualmente, ironicamente escrito por cima das folhas de Mein Kampf – minha luta, de Hitler). E, por mais que tenha desafiado a morte e a enganado diversas vezes, é da própria que vai receber de volta seu diário, no dia em que a Morte a buscará. Ela já estará em idade avançada e nada que a morte apronte, lhe assustará.

Recomendo muito este livro, ainda mais que me amarro em tudo que diz respeito à 2º Guerra Mundial. Lançado em 2007 por Marcos Zusak, escritor australiano, o livro já é Best Seller. Uma verdadeira lição de vida. Como se referiu o The New York times “uma mistura de Harry Potter e o Diário de Anne Frank”. Linda história!

Simone de Sá

sábado, 29 de dezembro de 2007

O Grande Projeto





E já que eu citei tanto no texto anterior, resolvi escrever um texto à parte para falar apenas sobre ele, o grande projeto.

Ele teve início há exatamente seis anos, reitero.

No ano de 2001, quando ia prestar vestibular pela primeira vez eu passei por um conflito e tanto, a escolha de minha profissão. Tá certo que eu já havia cogitado algumas possibilidades, mas tudo bem remoto. Quando eu estava no ensino fundamental, a única coisa mais próxima de profissão que eu pensava era ser bailarina. No ensino médio, já tive uma quedinha por direito, porque eu gostava de história e de discutir e eu achava que isso tinha tudo a ver com direito (e não deixa de ter...hehehe). Só que na realidade, nada disso tinha solidez, amadurecimento, pois só tive que lidar seriamente com isso, pela primeira vez, no colegial.

Foi o ano inteiro na indecisão, os testes vocacionais apontavam para profissões de humanas, mas eu não me imaginava dando aula e nem fazendo direito mais. Eu até pensei em jornalismo (por gostar de escrever), mas não tinha na federal do Amapá. Eu não sabia o curso, mas a faculdade sim, ou melhor, a universidade. Eu queria estudar na universidade federal, qualquer que fosse, mas federal. Achava divino estudar numa universidade federal e como eu gosto de desafios, já sabia o que me aguardava.

Acabou que eu prestei vestibular e fui aprovada nas profissões erradas, o que eu mais temia. Mas foi esclarecedor. A partir do que eu não queria, eu descobri o que eu queria. E eu queria estudar medicina.

Sabe aquele velho e corriqueiro adágio de que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”? Era exatamente o que minha mãe falava quando eu dizia que iria trancar o curso de enfermagem para tentar o vestibular para medicina. E por mais teimosa que fosse, eu tinha um certo receio. Mas receios não seriam pários para me intimidar. E eu sabia que ia ser pedreira desde o início e então o grande projeto ganhou asas.

Uma das melhores sensações da minha vida, meu orgulho inflado, minha conquista aflorada, meu reconhecimento transbordando, minha primeira grande vitória. Foi isso tudo que representou pra mim a minha aprovação no vestibular. Ninguém tem noção de como eu me senti com aquela conquista! Do que aquilo significou pra mim. Era como se eu tivesse assistindo um clipe de todo o sacrifício que passei tendo um final esplêndido! É uma sensação excitante até de lembrar. E eu adoro lembrar. Foi aí que meu grande projeto começou a virar realidade.

E foi tomando corpo com o tempo. Os primeiros anos do curso talvez sejam os mais difíceis, acredito. A gente acaba fantasiando muito a medicina e o primeiro contato é impactante, sobretudo porque fazemos tudo no básico, menos medicina. A gente decora nomes, decora reações químicas quilométricas, decora código de ética, decora estatística, decora insetos e etc, etc. Isso desestimula muito a cabecinha utópica de quem entra na universidade querendo salvar o mundo!

Os anos consecutivos são controversos. Passamos a ir para os hospitais, a atender pacientes, a receitar os remédios e examinar e tudo o mais. Maravilha. Era o que mais queríamos. Em compensação, nos deparamos com professores de caráter duvidoso, gente de má vontade, o sucateamento do sistema de saúde público e a calamidade que a população vivencia para ter assistência gratuita. Diria que é triste. Quem sabe muitos teriam desistido se tivessem visto tudo isso antes de se interessarem pela medicina.

Sem contar o “voto de castidade” que fazemos, porque fazemos um voto inconsciente quando entramos nessa vida. Que não seja entendido o sentido literal de “voto de castidade”, mas o sentido de que muitas coisas deverão ser abdicadas na vida pessoal em função da profissão, uma delas, noites tranqüilas de sono.

E não bastasse os problemas do SUS, ainda tem os problemas de ordem pessoal e, nesse quesito, a minha turma é campeã. No início tudo eram flores, mas com os anos as máscaras foram caindo e muitas decepções se seguindo. Falsas amizades, inveja, competição, gente mesquinha, tudo isso encontramos no caminho e com essas coisas é meio complicado lidar. Porém, atrás da tempestade sempre vem a bonança, não é? E mais do que amigos, encontrei irmãos no meio dessa selva, irmãos dos quais tenho orgulho de tê-los por perto. Incríveis e incansáveis demonstrações de amizade sempre permeando e reforçando a importância deles.

Passado o básico e o profissional e, assim, longos 4 anos de dedicação integral (incluindo noites e fins de semanas!), esta por vir agora os últimos 2 anos, o internato. Agora eu não tenho suporte pra dissertar, mas sei que a coisa pega. É o momento em que devemos por em prática tudo o que aprendemos em 4 anos. E esse é o problema. A insegurança de não ter aprendido o suficiente, o receio de errar, de não ter preenchido a deficiência do ensino, tudo isso pesa nesse momento. E a busca de alternativas é uma coisa inevitável nessa fase (medcurso). Eu fico pensando se nesses 2 anos as coisas serão diferentes e tenho esperança que realmente sejam, pois afinal de contas, é meu grande projeto em jogo!

E eu estou cheia de expectativas para o internato, estou aflita para que comece logo e que esse aprendizado seja válido pra vida toda. Quero muito poder atender bem meus pacientes, poder ajudar realmente quem precisa de apoio, poder usar do meu conhecimento para promover o bem. Se eu conseguir fazer isso nesses dois últimos anos e me formar com esse propósito realizado, terei certeza que o meu projeto terá valido muito a pena e terei confiança para colocar outros ainda maiores em prática.

Eu espero daqui a exatos 2 anos, ocasião da minha formatura, poder reescrever esse texto e incluir nele tudo de bom que eu tenha vivido na minha vida profissional nesse período e o quanto me ajudou a ser uma boa médica e talvez até mesmo uma pessoa melhor.


Simone de Sá

Metamorfose Ambulante




Eu poderia escrever sobre muitas coisas hoje. Eu poderia escrever sobre o clima “envolvente” de natal e fim de ano que assola quase todo mundo; poderia escrever sobre minhas experiências natalinas ao longo desses 24 anos (de pelo menos uns 19 anos eu lembro); poderia escrever sobre os presentes que pedi (os que ganhei e os que não ganhei) e, sobretudo, àqueles que ganhei sem pedir. É...eu poderia...acho até que estou usando o futuro do pretérito indevidamente aqui (poderia diz respeito a algo que deveria acontecer – eu escrever – mas que não acontecerá – eu não escrever – entretanto irei escrever).

O natal, assim como tantas coisas, assumiu com o tempo uma faceta diferente daquela que eu aprendi quando era criança. Claro, não posso dizer que acredito em papai noel ou que gosto das músicas da Simone. Mas o que me deixa mais decepcionada é que o sentido essencial do natal tem sido deixado em segundo plano e dado vez às práticas de apelo comercial, sensacionalismo pela televisão, entre outras coisas. Talvez eu gostasse muito mais do natal quando eu não entendia essas coisas, quando eu só pensava em ganhar meus presentes (egoísmo inconsciente) e comer bastante meia noite junto com minha família todas as guloseimas que a mamãe não me deixava comer o ano inteiro. Mas não vamos entrar nesse mérito, não quero destilar minha visão pessimista mais uma vez aqui no blog, pelo contrário, quero falar de um assunto mais agradável (mais adiante saberão!).

Eu tenho tentando, por sinal, me policiar quanto a esse meu jeito “teimoso”, eu diria com muito eufemismo. Esse jeito quase sempre implicante e contestador de ser, eu reforço o eufemismo. O meu jeito típico que só quem me conhece bem sabe do que estou falando. A sorte, a sorte mesmo, é que sou uma pessoa bastante autocrítica (talvez por isso deteste crítica alheia), embora isso não queira dizer que eu seja uma pessoa influenciada por tais críticas e tampouco dissuadida. Engraçado, mas é essa a imagem que eu passo para os outros, a imagem de uma pessoa “turrona”. Ontem mesmo tive dois exemplos. Um amigo me perguntou:

- E ai, como foi o natal?
- Mais ou menos, muita “média” pro meu gosto – respondi naturalmente.
- É a segunda pessoa que me fala isso, mas de ti eu até entendo porque és ranzinza mesmo!
- Eu?! – respondi assustada.

Um outro amigo leu o blog e falou que estava muito feliz em me ver escrever sobre sentimentos, que não esperava... Enfim... Vamos ver se eu consigo limpar um pouco a minha barra...

Ah, e só comecei falando do natal para desencadear meu pensamento sem perder o fio da meada, entretanto é assunto acessório.

Querendo ou não, o fim de ano mexe comigo e não deixa de ter uma conotação especial, traz lembranças do passado e, portanto, traz uma coisa que ao mesmo tempo em que é bom sentir, dói, a saudade. É sobre ela que eu vou gastar meus neurônios agora. Até por que não tem melhor momento pra se falar dela do que quando a sentimos.

As coisas mudam, e mudam rápido e, às vezes, não temos tempo para digerir isso. A vida é mesmo uma metamorfose ambulante, como intitulei o texto.

Refiro-me em especial à minha infância. Penso que um dia desses eu estava em Macapá, com meus pais, meus irmãos e meus amigos, na nossa casa, todos reunidos. Eu não tinha grandes pretensões, não tinha tanta liberdade, não pagava contas, não estudava muito, minhas únicas preocupações eram brincar e passar de ano. E o melhor de tudo, eu era muito feliz!

O tempo foi passando e fui priorizando outras coisas e minhas preocupações também mudaram, passaram a ser pintar a unha toda semana, fazer academia, ser a melhor do balé, passar de ano, etc. E apesar de ser engraçado hoje, digo, eu também era muito feliz naquela época.

E assim foram se sucedendo outros momentos na minha vida, outras prioridades foram tomando espaço, outras pretensões ganhando terreno e, apesar da felicidade ser uma constante (aliás, eu nunca abri mão de ser feliz!), ela está incompleta a um bom tempo, mais especificamente, há seis anos.

Há exatos seis anos eu estabeleci uma meta na minha vida que, invariavelmente, me faria sofrer; o fato de mudar de cidade e, principalmente, me afastar da minha família (quando falo família refiro-me estritamente a pai, mãe e irmãos). Até então eu não conhecia outra formação a não ser àquela a qual estava acostumada. Não sabia, porém, o quanto me faria falta aquilo que eu estava prestes a abandonar em troca de um grande projeto. E é essa fragmentação da minha família que á a parte do bolo que falta na mesa, e eu vivo a minha felicidade por partes, mas tenho plena consciência que ela não é completa por falta deles.

Minha mãe amada, implicante, dedicada e batalhadora. Meu paizinho, que me cedeu o gene de gostar de escrever, sem dúvida. Minha irmã caçula, tola e amável. Meu irmão do meio genioso e amigo. E a primogênita que me acompanha esses anos e que, do jeito dela, me passa força.

Tudo bem que quando eu vim pra essa cidade, minha irmã mais velha já morava aqui, porém não éramos muito ligadas. Talvez nossas semelhanças nos afastassem, mas é bem verdade que hoje somos mais irmãs do que fomos antes. E se de um lado se ganha, impreterivelmente se perde de outro. Perdi a adolescência da minha irmã caçula, o nascimento do meu sobrinho, os últimos anos de minha avó e provavelmente, os do meu avô e tenho perdido muita coisa da minha família e ainda vou perder muito mais. E o contrário é verdadeiro, eles perdem também da minha. Sinto por não poder estar perto, participando, ajudando nos problemas, dando minha opinião, cultivando meus velhos e bons amigos, perdendo o transcorrer da vida que era minha e que agora não é mais. Sinto por não tê-los aqui quando estou com problemas, quando estou doente, quando choro e quando tenho uma boa nova que gostaria de compartilhar. Como isso é ruim, uma sensação de impotência, e eu odeio sensação de impotência!

Pergunto-me se eu poderia mudar as coisas. E me frustro com a resposta. Talvez eu pudesse ter amenizado ficando lá, mas será que eu estaria feliz por completo? Quem sabe fazer pouco caso dos meus projetos não fosse a solução. A vida tem um curso a ser seguido, tirando o batido nascer-crescer-reproduzir-morrer, a trajetória da vida é uma coisa particular, que nem sempre é como esperamos. E eu me consolo acreditando que eu tinha que ter vindo pra cá cursar a faculdade que eu almejava, tinha que aprender a me virar e a enfrentar as dificuldades sozinha, a ter liberdade pra ser a dona da minha vontade e do meu nariz e responder por mim, aprendendo com os erros e acertando com a audácia. Eu não posso negar que a audácia é uma característica minha. E também a pretensão. Eu não quero nunca perder a oportunidade de me fazer notável. Sabe, eu penso, a vida é tão curta para perdermos tempo sem fazer nada! Acho que devemos almejar fazer o melhor por nós e pelos demais. E é aí que eu lembro de alguma coisa dita por Chico Xavier que eu acho fenomenal. Ele dizia que poderíamos até morar numa casa mais ou menos, ter um governo mais ou menos ou comer mais ou menos; o que não deveríamos é viver mais ou menos, sonhar mais ou menos, amar mais ou menos, ter fé mais ou menos e se tornar uma pessoa mais ou menos. E é verdade isso. Eu não quero ser uma pessoa mais ou menos nunca.

E se hoje caminho para a concretização de um grande projeto (não chamo de sonho uma vez que é real), é porque já passei por poucas e boas nessa cidade, já me deparei com vários leões e me degladiei com eles, já escorreguei várias vezes em chão molhado e levantei e, sobretudo, porque consegui superar todos esses contratempos longe da minha família e pela minha família. Seria grosseiro de minha parte dizer que fiz tudo sozinha. Não é verdade. Isso é apenas modo de dizer. Eu fiz, em contrapartida, uma nova família aqui, pessoas que me apóiam incondicionalmente e que foram/são alicerces mais que fundamentais da minha odisséia.

Mas voltando à temática “saudade”, uma coisa é verdade e eu sempre digo, só sente saudade quem já viveu coisas boas, afinal, quem sentirá saudade de algo ruim? Só sente saudade quem tem o dom de eternizar os bons momentos da vida, quem viveu com boas pessoas, quem teve boas amizades, quem já amou ou foi amado e quem tem boas lembranças.

E pra quem começou falando de natal e acabou arranhando ensinamentos de Chico Xavier, acho que minha saudade foi bem contempladora. Eu sei que vou sentir saudade do hoje, quando for amanhã. Que daqui a dez anos eu vou escrever exatamente a saudade do meu futuro próximo, quem sabe mais nostálgica do que agora. Acredito que a saudade é um sentimento ambulante e conforme o tempo passa, mais a sentimos, pois mais coisas teremos vivido e mais lembranças teremos para sentir saudades.

Enquanto à imagem de minha infância contemporânea à de minha família, sei que ainda vou sentir muita saudade dela, contudo sei também que não posso me martirizar pelo que não mais voltará. A família vai ganhar outras caras com o tempo, e é natural que isso ocorra. E eu sei que vou conseguir assimilar isso e ser feliz com essa idéia, pois o que vale na família são os laços de amizade e carinho que existe independente da distância, e isso a minha tem até de sobra!

E termino esse texto com um trecho que adoro dos Engenheiros do Hawaí:

“Na falta de algo melhor, nunca me faltou coragem; se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual”.

Simone de Sá

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Gentileza


Recentemente viajei para o Rio de Janeiro e lá passei poucos e intensos dias e uma coisa muito boa (dentre tantas outras) foi ter visto, logo ao chegar, o muro pintado, o muro de gentileza. Foi inesperado. Íamos conversando coisas dispépticas no caminho ao apto da minha amiga, quando vi o muro e a indaguei:

-É aquele da música da Marisa Monte, não é?
-É. Não falei porque achei que não conheciam- respondeu ela.

Ah, eu poderia esquecer de muitas coisas, menos de uma das minhas músicas favoritas de minha cantora favorita (não canso de dizer).

Bem, mas voltando ao raciocínio, a música "gentileza" , desde então, permeou minha cabeça diariamente e eu resolvi escutá-la novamente e folhear o encarte do CD para ver se sanava minha "pseudo-obssessão", só que desta vez foi diferente porque ao invés de ouvir a música, eu a senti. Eu senti a música como nunca tinha acontecido antes, embora eu já a tivesse escutado inúmeras vezes e fiquei emocionalmente entorpecida com tal canção. Foi um acontecimento sinestésico, um mister de sensações prazerosas que eu só sinto com "outras coisas" que considero igualmente prazerosas. Não foi a primeira vez que uma música me causou esta impressão, entretanto foi a primeira com a dita melodia.

Aí eu me danei a pesar na vida e por que não começar pelo título da canção: gentileza.

O que vem a ser a gentileza? Somos gentis com os outros? Os outros são gentis com a gente? Somos gentis com os outros para que os outros sejam gentis com a gente ou esperamos que os outros sejam gentis com a gente, embora não sejamos gentis com ninguém?

Filosofia à parte, a gentileza é o protótipo da educação+amabilidade+delicadeza+elegância. Para ser mais eloqüente, ser gentil é tratar os outros bem, com respeito e atenção. É até um tanto utópico falar desses conceitos nos dias de hoje, em que chegamos a nos assustar quando alguém nos trata bem! O que deveria ser de praxe (a gentileza), acaba sendo um evento isolado e inesperado.

Isso me recorda uma situação vivenciada a poucos dias junto a uma amiga. Nós estávamos indo a uma unidade administrativa da Universidade (FADESP) para receber a resposta de um processo que tínhamos dado entrada. Logo na chegada, a secretária nos recebeu tão educadamente e sorridente que pensei ter cometido uma gafe! Ela nos guiou até o setor responsável, muito solicitamente. Chegando lá, mais gentileza. O chefe veio falar conosco simpaticamente, procurou nosso processo minuciosamente e nos dando atenção ao mesmo tempo, ofereceu-nos café e explicou detalhadamente tudo o que queríamos saber. Saímos de lá maravilhadas e, paradoxalmente, bestificadas. Em quase cinco anos de universidade nunca tínhamos sido tão bem recepcionadas quanto lá fomos (ainda mais por se tratar de órgão público federal!!).

Intrigante termos sentido aquilo, quando o certo seria que fosse sempre assim. As pessoas que trabalham nesses órgãos e ocupam cargos públicos, sobretudo, agem como se estivessem fazendo favor pra gente. Quando na verdade somos nós quem pagamos seus salários. E para piorar ainda mais, isso não se restringe ao setor público, ocorre também no privado. Isso me recorda outra história (de tão banal que se tornou!).

Um dia desses estava tomando sorvete com uma amiga e um casal, pais de um amigo meu. Tomamos o sorvete, conversamos, tomamos mais sorvete e conversamos mais até que resolvemos pagar a conta e ir embora. Antes de deixarmos o local, fomos lavar as mãos, como de costume e entramos no carro. O pai do meu amigo estava indignado, revoltado com o que acabara de ler. Ao lado da pia tinha a seguinte recomendação: "Use apenas duas folhas para secar as mãos". E após trocarmos idéias e opiniões, me impressionei por não ter me revoltado de início também, uma vez que tinha lido a mesma coisa e tinha concordado plenamente com os motivos dele. Ele dizia: "É inadmissível um estabelecimento ter esse tipo de atitude mesquinha". E ele estava coberto de razão.

Um lugar que depende unicamente dos outros para prosperar deveria, no mínimo, oferecer o melhor sabonete e as melhores e infinitas toalhas para enxugarmos as mãos! Por que admitimos esses absurdos? Por que não questionamos? Por que não boicotamos lugares assim? Porque estamos acostumados a ser tratados com desrespeito. As pessoas, os estabelecimentos, os órgãos públicos e privados nos molestam o tempo todo e não fazemos NADA (dependendo do que for eu até faço!). E isso tudo só nos desponta uma realidade desprovida de qualquer tipo de gentileza, daí o porquê de nos sentirmos tão bem quando alguém nos é gentil.

Acredito na gentileza intrínseca, não na gentileza oriunda do marketing (essa gentileza é um pouco forjada, mas menos pior), não na gentileza tão praticada na "política pessoal" (essa soa como falsidade!). Acredito sim, na gentileza resultante da personalidade e, sobretudo, naquela advinda de uma boa criação.



A quem interessar: História do profeta Gentileza (que inspirou a música da Marisa Monte).



José Datrino, chamado Profeta Gentileza, tornou-se conhecido a partir de 1980 por fazer inscrições peculiares sob um viaduto no RJ, onde andava com uma túnica branca e longa barba. Após um grande incêndio num circo de Niterói, o que foi considerado uma das maiores tragédias circenses do mundo, José acordou alegando ter ouvido "vozes astrais", segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. O Profeta plantou um jardim e uma horta no lugar do circo e fez de lá sua morada por 4 anos. Lá, José Datrino incutiu nas pessoas o real sentido das palavras Agradecido e Gentileza. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Daquele dia em diante, passou a se chamar "José Agradecido", ou simplesmente “Profeta Gentileza”.



O profeta Gentileza começou a sua jornada como personagem andarilho. A partir de 1970 percorreu toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: - "Sou maluco para te amar e louco para te salvar".



A partir de 1980, escolheu 56 pilastras do Viaduto do Caju, no Rio de Janeiro, numa extensão de aproximadamente 1,5km. Ele encheu as pilastras com inscrições em verde-amarelo propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização.
Citação: “Gentileza gera gentileza”



E para não perder o costume, a música.


Gentileza - Marisa Monte


Apagaram tudo

pintaram tudo de cinza

a palavra no muro ficou coberta de tinta

apagaram tudo

pintaram tudo de cinza

só ficou no muro tristeza e tinta fresca

nós que passamos apressados

pelas ruas da cidade

merecemos ler as letras e as palavras de gentileza

por isso eu pergunto a você no mundo

se é mais inteligente o livro ou a sabedoria

o mundo é uma escola

a vida é um circo

amor palavra que liberta

já dizia o profeta

apagaram tudo

pintaram tudo de cinza

só ficou no muro tristeza e tinta fresca



Acho que filosofarei menos da próxima...


Simone de Sá