
Eu poderia escrever sobre muitas coisas hoje. Eu poderia escrever sobre o clima “envolvente” de natal e fim de ano que assola quase todo mundo; poderia escrever sobre minhas experiências natalinas ao longo desses 24 anos (de pelo menos uns 19 anos eu lembro); poderia escrever sobre os presentes que pedi (os que ganhei e os que não ganhei) e, sobretudo, àqueles que ganhei sem pedir. É...eu poderia...acho até que estou usando o futuro do pretérito indevidamente aqui (poderia diz respeito a algo que deveria acontecer – eu escrever – mas que não acontecerá – eu não escrever – entretanto irei escrever).
O natal, assim como tantas coisas, assumiu com o tempo uma faceta diferente daquela que eu aprendi quando era criança. Claro, não posso dizer que acredito em papai noel ou que gosto das músicas da Simone. Mas o que me deixa mais decepcionada é que o sentido essencial do natal tem sido deixado em segundo plano e dado vez às práticas de apelo comercial, sensacionalismo pela televisão, entre outras coisas. Talvez eu gostasse muito mais do natal quando eu não entendia essas coisas, quando eu só pensava em ganhar meus presentes (egoísmo inconsciente) e comer bastante meia noite junto com minha família todas as guloseimas que a mamãe não me deixava comer o ano inteiro. Mas não vamos entrar nesse mérito, não quero destilar minha visão pessimista mais uma vez aqui no blog, pelo contrário, quero falar de um assunto mais agradável (mais adiante saberão!).
Eu tenho tentando, por sinal, me policiar quanto a esse meu jeito “teimoso”, eu diria com muito eufemismo. Esse jeito quase sempre implicante e contestador de ser, eu reforço o eufemismo. O meu jeito típico que só quem me conhece bem sabe do que estou falando. A sorte, a sorte mesmo, é que sou uma pessoa bastante autocrítica (talvez por isso deteste crítica alheia), embora isso não queira dizer que eu seja uma pessoa influenciada por tais críticas e tampouco dissuadida. Engraçado, mas é essa a imagem que eu passo para os outros, a imagem de uma pessoa “turrona”. Ontem mesmo tive dois exemplos. Um amigo me perguntou:
- E ai, como foi o natal?
- Mais ou menos, muita “média” pro meu gosto – respondi naturalmente.
- É a segunda pessoa que me fala isso, mas de ti eu até entendo porque és ranzinza mesmo!
- Eu?! – respondi assustada.
Um outro amigo leu o blog e falou que estava muito feliz em me ver escrever sobre sentimentos, que não esperava... Enfim... Vamos ver se eu consigo limpar um pouco a minha barra...
Ah, e só comecei falando do natal para desencadear meu pensamento sem perder o fio da meada, entretanto é assunto acessório.
Querendo ou não, o fim de ano mexe comigo e não deixa de ter uma conotação especial, traz lembranças do passado e, portanto, traz uma coisa que ao mesmo tempo em que é bom sentir, dói, a saudade. É sobre ela que eu vou gastar meus neurônios agora. Até por que não tem melhor momento pra se falar dela do que quando a sentimos.
As coisas mudam, e mudam rápido e, às vezes, não temos tempo para digerir isso. A vida é mesmo uma metamorfose ambulante, como intitulei o texto.
Refiro-me em especial à minha infância. Penso que um dia desses eu estava em Macapá, com meus pais, meus irmãos e meus amigos, na nossa casa, todos reunidos. Eu não tinha grandes pretensões, não tinha tanta liberdade, não pagava contas, não estudava muito, minhas únicas preocupações eram brincar e passar de ano. E o melhor de tudo, eu era muito feliz!
O tempo foi passando e fui priorizando outras coisas e minhas preocupações também mudaram, passaram a ser pintar a unha toda semana, fazer academia, ser a melhor do balé, passar de ano, etc. E apesar de ser engraçado hoje, digo, eu também era muito feliz naquela época.
E assim foram se sucedendo outros momentos na minha vida, outras prioridades foram tomando espaço, outras pretensões ganhando terreno e, apesar da felicidade ser uma constante (aliás, eu nunca abri mão de ser feliz!), ela está incompleta a um bom tempo, mais especificamente, há seis anos.
Há exatos seis anos eu estabeleci uma meta na minha vida que, invariavelmente, me faria sofrer; o fato de mudar de cidade e, principalmente, me afastar da minha família (quando falo família refiro-me estritamente a pai, mãe e irmãos). Até então eu não conhecia outra formação a não ser àquela a qual estava acostumada. Não sabia, porém, o quanto me faria falta aquilo que eu estava prestes a abandonar em troca de um grande projeto. E é essa fragmentação da minha família que á a parte do bolo que falta na mesa, e eu vivo a minha felicidade por partes, mas tenho plena consciência que ela não é completa por falta deles.
Minha mãe amada, implicante, dedicada e batalhadora. Meu paizinho, que me cedeu o gene de gostar de escrever, sem dúvida. Minha irmã caçula, tola e amável. Meu irmão do meio genioso e amigo. E a primogênita que me acompanha esses anos e que, do jeito dela, me passa força.
Tudo bem que quando eu vim pra essa cidade, minha irmã mais velha já morava aqui, porém não éramos muito ligadas. Talvez nossas semelhanças nos afastassem, mas é bem verdade que hoje somos mais irmãs do que fomos antes. E se de um lado se ganha, impreterivelmente se perde de outro. Perdi a adolescência da minha irmã caçula, o nascimento do meu sobrinho, os últimos anos de minha avó e provavelmente, os do meu avô e tenho perdido muita coisa da minha família e ainda vou perder muito mais. E o contrário é verdadeiro, eles perdem também da minha. Sinto por não poder estar perto, participando, ajudando nos problemas, dando minha opinião, cultivando meus velhos e bons amigos, perdendo o transcorrer da vida que era minha e que agora não é mais. Sinto por não tê-los aqui quando estou com problemas, quando estou doente, quando choro e quando tenho uma boa nova que gostaria de compartilhar. Como isso é ruim, uma sensação de impotência, e eu odeio sensação de impotência!
Pergunto-me se eu poderia mudar as coisas. E me frustro com a resposta. Talvez eu pudesse ter amenizado ficando lá, mas será que eu estaria feliz por completo? Quem sabe fazer pouco caso dos meus projetos não fosse a solução. A vida tem um curso a ser seguido, tirando o batido nascer-crescer-reproduzir-morrer, a trajetória da vida é uma coisa particular, que nem sempre é como esperamos. E eu me consolo acreditando que eu tinha que ter vindo pra cá cursar a faculdade que eu almejava, tinha que aprender a me virar e a enfrentar as dificuldades sozinha, a ter liberdade pra ser a dona da minha vontade e do meu nariz e responder por mim, aprendendo com os erros e acertando com a audácia. Eu não posso negar que a audácia é uma característica minha. E também a pretensão. Eu não quero nunca perder a oportunidade de me fazer notável. Sabe, eu penso, a vida é tão curta para perdermos tempo sem fazer nada! Acho que devemos almejar fazer o melhor por nós e pelos demais. E é aí que eu lembro de alguma coisa dita por Chico Xavier que eu acho fenomenal. Ele dizia que poderíamos até morar numa casa mais ou menos, ter um governo mais ou menos ou comer mais ou menos; o que não deveríamos é viver mais ou menos, sonhar mais ou menos, amar mais ou menos, ter fé mais ou menos e se tornar uma pessoa mais ou menos. E é verdade isso. Eu não quero ser uma pessoa mais ou menos nunca.
E se hoje caminho para a concretização de um grande projeto (não chamo de sonho uma vez que é real), é porque já passei por poucas e boas nessa cidade, já me deparei com vários leões e me degladiei com eles, já escorreguei várias vezes em chão molhado e levantei e, sobretudo, porque consegui superar todos esses contratempos longe da minha família e pela minha família. Seria grosseiro de minha parte dizer que fiz tudo sozinha. Não é verdade. Isso é apenas modo de dizer. Eu fiz, em contrapartida, uma nova família aqui, pessoas que me apóiam incondicionalmente e que foram/são alicerces mais que fundamentais da minha odisséia.
Mas voltando à temática “saudade”, uma coisa é verdade e eu sempre digo, só sente saudade quem já viveu coisas boas, afinal, quem sentirá saudade de algo ruim? Só sente saudade quem tem o dom de eternizar os bons momentos da vida, quem viveu com boas pessoas, quem teve boas amizades, quem já amou ou foi amado e quem tem boas lembranças.
E pra quem começou falando de natal e acabou arranhando ensinamentos de Chico Xavier, acho que minha saudade foi bem contempladora. Eu sei que vou sentir saudade do hoje, quando for amanhã. Que daqui a dez anos eu vou escrever exatamente a saudade do meu futuro próximo, quem sabe mais nostálgica do que agora. Acredito que a saudade é um sentimento ambulante e conforme o tempo passa, mais a sentimos, pois mais coisas teremos vivido e mais lembranças teremos para sentir saudades.
Enquanto à imagem de minha infância contemporânea à de minha família, sei que ainda vou sentir muita saudade dela, contudo sei também que não posso me martirizar pelo que não mais voltará. A família vai ganhar outras caras com o tempo, e é natural que isso ocorra. E eu sei que vou conseguir assimilar isso e ser feliz com essa idéia, pois o que vale na família são os laços de amizade e carinho que existe independente da distância, e isso a minha tem até de sobra!
E termino esse texto com um trecho que adoro dos Engenheiros do Hawaí:
“Na falta de algo melhor, nunca me faltou coragem; se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual”.
Simone de Sá